Arquidiocese do Rio

  1. No ensejo das celebrações da Comemoração dos Fiéis Defuntos neste início de novembro, penso ser oportuno tratar de um assunto que não raras vezes é objeto de dúvidas e debates entre católicos. Após a morte, que destino deve-se dar aos cadáveres dos fiéis defuntos? Ora, entre nós católicos é tradicional o costume de enterrar os mortos. Contudo, tem se tornado cada vez mais popular no Brasil a cremação. E muitos são aqueles entre nós que manifestam ainda em vida o desejo de seus corpos serem cremados após a morte. Entretanto, é preciso dizer muito claramente que esta prática não faz parte da nossa tradição católica. Mais ainda: trata-se de prática oriunda do paganismo, tanto na Antiguidade quanto nos nossos dias.

    Na Antiguidade, entre os pagãos gregos e romanos era comum tanto a inumação (sepultamento) quanto a cremação dos corpos. Evidentemente, eles não concebiam a ressurreição da carne, mas acreditavam em uma espécie de vida após a morte. Outrossim, ainda hoje são muito comuns as diárias cremações a céu aberto ocorridas na Índia, país de maioria hindu, onde os corpos são cremados a céu aberto e as cinzas jogadas no rio Ganges, considerado pelos hindus como um rio sagrado; acreditam eles que após ser queimado o corpo, a alma vai diretamente ao Nirvana até que reencarne em outro corpo humano ou animal. Já os judeus tradicionalmente sempre enterraram os seus defuntos, salvo casos excepcionais, tais como guerras ou epidemias, quando, então, os corpos eram, por razões óbvias, cremados (cf. 1Sm 31,12s; Am 6,9s).

    A Igreja desde sua origem praticou exclusivamente a inumação, ou enterro dos cadáveres. Até mesmo em tempos de perseguição, os primeiros cristãos arriscavam suas vidas para recolher os corpos de seus mártires, com o objetivo de sepultá-los digna e piedosamente. E depois de sepultados, os cristãos sempre tiveram o costume de visitar e cuidar dos sepulcros, onde os restos mortais dos fiéis defuntos aguardam a ressurreição no Dia do Senhor, além de oferecer sufrágios pelas almas dos falecidos através de orações, penitências, peregrinações e, principalmente, celebrações de missas.

    Ora, a cremação por si mesma em nada contradiz a fé católica. Exatamente por isso a Igreja não se opõe à incineração dos cadáveres, quando esta muitas vezes se faz necessária, como em casos de epidemias, ou da própria pandemia que estamos vivenciando, guerras, tragédias com grande número de mortos ou limitado espaço para novas sepulturas em uma cidade. Assim diz o Catecismo da Igreja Católica: Os corpos dos fiéis defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição. O enterro dos mortos é uma obra de misericórdia corporal que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo. (...) A Igreja permite a cremação, se esta não manifestar uma posição contrária à fé na ressurreição dos corpos(cf.: CIC 2300-2301). Porém, a Igreja julga que este não deve ser o destino normalmente imposto aos defuntos. Pois o corpo humano, criado por Deus e por Ele mesmo dignificado na encarnação e ressurreição do Senhor, não deve ser tratado como lixo que é incinerado.

    A Igreja nos ensina a tratar com respeito os cadáveres, conscientizando os fiéis a respeito da dignidade única de que goza o corpo humano, por ser ele animado por uma alma espiritual, por ser ele elevado por Cristo à dignidade de templo do Espírito Santo, por ser ele, uma vez banhado nas águas batismais, feito habitação de Deus. Ademais, o corpo do cristão é constantemente nesta vida posto em contato com o corpo de Cristo na eucaristia. Com efeito, este corpo humano que recebeu no batismo a semente da vida eterna e é periodicamente nutrido pela eucaristia, pão da vida eterna, há de ser no último dia, o Dia do Senhor, penetrado pela glória de Deus, ressuscitando transfigurado. É por isso que a Igreja recomenta insistentemente que se conserve o costume de sepultar os corpos dos defuntos, mas não proíbe a cremação, desde que esta não seja motivada por razões pagãs contrárias à fé na ressurreição no último dia.

    Porém, uma vez cremado o corpo do defunto, as suas cinzas devem ser conservadas em vista da ressurreição no último dia, assim como os ossos dos corpos sepultados devem também ser conservados em vista deste dia glorioso. Assim, exclui-se a prática, que tem se tornado comum, de se desfazer das cinzas dos fiéis defuntos despejando-as no mar, num rio, num bosque etc. Tanto as cinzas quanto os ossos devem ser conservados em cinzários, ossuários ou sepulcros de cemitérios e igrejas. Pois, ao contrário do que muitos pensam, no dia da ressurreição dos mortos, estes não receberão um novo corpo glorioso, mas os corpos que tiveram nesta vida mortal serão ressuscitados, transfigurados, glorificados. Por isso, seus restos mortais devem ser sempre digna e piedosamente conservados.

    Entretanto, enquanto este grande dia não chega, ao qual os cristãos devem aguardar com forte e alegre expectativa, cabe-nos rezar pelos fiéis falecidos, principalmente oferecendo missas em sufrágio pelas almas, a fim de que sejam admitidas na glória celestial, gozando das bem-aventuranças perenes que o Senhor reserva para os seus amigos na feliz eternidade.
     
    Padre Valtemario S. Frazão Jr.



    31/10/2020 - Atualizado em 31/10/2020 00:31

  2. Num período em que todos precisaram fechar as portas de casa devido à necessidade de isolamento social, as mídias sociais, certamente, foram janelas que se abriram para uma conexão com o mundo ao redor.

    Dessa forma, visando refletir sobre as experiências desse momento, a partir do tema “Mídia e religião: as novas concepções de relação com o sagrado”, a Arquidiocese do Rio de Janeiro, por meio do Vicariato para a Comunicação Social, promoveu a 7ª edição do Seminário de Comunicação, que aconteceu entre os dias 22, 23 e 24 de outubro e, pela primeira vez, num ambiente totalmente virtual.

    Outra novidade é que o evento não se resumiu apenas aos três dias de formação. Assim, todos os inscritos participarão de um curso anual, que só findará em outubro do próximo ano, com formações mensais acerca do tema comunicação social.

    Na abertura do evento, o Cardeal Orani João Tempesta destacou que o encontro é uma oportunidade para avaliar a experiência por meio das mídias sociais. “O seminário tem sido um momento de serviço à Igreja, levando as pessoas a pensarem a comunicação dentro das várias realidades atuais. O tema reflete o momento da história em que vivemos: nunca tivemos tanto trabalho com a mídia social como agora. Sempre falamos da importância dela, de como utilizá-la para chegar às pessoas, e vejo que esta é uma oportunidade para que façamos uma avaliação e vejamos quais são as contribuições e experiências com relação a esse momento”, disse.

    Para padre Arnaldo Rodrigues, vigário episcopal do Vicariato para a Comunicação Social, há uma mudança na maneira de se relacionar, impulsionada pela pandemia. “É com muita alegria que acolhemos a todos. Esse ano é bem diferente, mas não podíamos deixar que o seminário passasse. Já vivemos a realidade do tema proposto para este ano. Mesmo virtual, estamos juntos, refletindo junto com grandes profissionais da área. No Brasil e no mundo, vimos uma mudança no modo de se relacionar com Deus, com o mundo, consigo mesmo, com o próximo. Isso tem refletido muito, não somente nas mídias, mas também no nosso encontro com os demais”, argumentou.

    'Uma nova expressão de eclesialidade'
    A primeira palestra do seminário foi ministrada pelo jornalista, tradutor e consultor em comunicação para diversas entidades civis e religiosas Moisés Sbardelotto, que discorreu sobre o tema “Religião e rede: a comunicação da fé na pós-pandemia”.

    Segundo ele, “a ideia de falar sobre a comunicação e a fé na pós-pandemia são partir um pouco da realidade em que todos nós estamos vivendo como pessoas, mas também como Igreja, sendo essa uma nova forma de presença, graças ao digital. Assim, também podemos pensar numa nova expressão de eclesialidade. Mesmo com o fechamento das nossas casas, com os confinamentos, conseguimos e, de algum modo, fomos chamados a ‘sair para fora’ por meio digital. Mantivemos, de alguma maneira, nossas relações pessoais, mas também como irmãos e irmãs de fé. Assim, tem-se uma perspectiva da religião em/como rede”, afirmou.

    A segunda conferência abordou a temática do “Monitoramento de redes sociais, análise de redes e ferramentas para pesquisa”, ministrada pelo pesquisador e analista de monitoramento de redes sociais Edson Andrade.

    O conferencista alertou sobre o cuidado necessário para com os dados pessoais nas mídias. “Temos o costume de participar de jogos de perguntas e respostas nas mídias sociais. Em tudo isso, geramos dados. Dessa forma, damos gratuitamente nossas informações pessoais e, assim, as plataformas os vendem e enriquecem. Nossos dados são armazenados nos servidores e, a partir disso, as publicidades são vendidas. Sempre geramos dados. Devemos pensar bem, antes de preencher cadastros, para onde irão esses dados. Com eles é possível fazer muita coisa”, salientou.

    Redes sociais: um impulso na pandemia
    Já no segundo dia, a terceira conferência do seminário abordou sobre o tema: “Twitter e melhores práticas”, ministrada pelo gerente de políticas públicas do Twitter no Brasil, Fernando Gallo.

    Sobre a plataforma, ele explicou que “cada vez mais, o debate público tem acontecido no Twitter. Esse é o lugar que tende a ser, no melhor dos sentidos, disputado. É como se ele fosse uma praça pública onde os debates acontecem cada vez mais. E o nosso propósito é servir a essa conversa pública. O Twitter é uma plataforma pública, no sentido de que todos podem ver tudo, inclusive, quem não tiver conta na plataforma também pode acessar aos conteúdos. Além disso, também é uma plataforma de conversas, uma vez que qualquer pessoa pode conversar com outra, sem necessariamente se seguirem”, esclareceu.

    “5 Dicas sobre a Comunicação Digital no novo Normal” foi o tema da quinta conferência, ministrada pelo diretor do Workplace by Facebook na América Latina, Adriano Marcandali.

    De acordo com ele, alguns comportamentos adquiridos no isolamento tendem a permanecer num período pós-pandemia. “As pessoas passaram a usar as redes para aprender coisas novas e desenvolver habilidades, o que se tornou uma tendência, assim como o apoio da sociedade relacionado ao negócio local: o mercado do bairro, a floricultura da esquina. Essa solidariedade continua e o apoio é fundamental. Para isso é necessário que os microempreendimentos estejam no meio digital. Em determinados momentos, muitas pessoas tiveram medo de sair de casa. Assim, muitos serviços de entrega tiveram um aumento significativo. Para o período pós-pandemia, alguns comportamentos adquiridos no isolamento tendem a permanecer, como a compra on-line, os exercícios em casa, serviços de entrega de comida, pagamentos via celular, videoconferências e o trabalho em casa”, completou.

    'Isolamento não implica distância'
    O terceiro dia de seminário teve início com a quinta palestra, intitulada “Comunicação, Igreja e Sociedade”, ministrada pelo conferencista Filipe Montargil, professor da Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa, em Portugal.

    Montargil utilizou o aplicativo Be my eyes para exemplificar a importância da comunidade diante das necessidades dos demais. Composto por pessoas com deficiência visual e visão limitada, em conjunto com voluntários sem deficiência, através do aplicativo, por meio de uma chamada de vídeo, os voluntários podem ajudar às pessoas com deficiência desde a combinação de cores até a checagem de luzes acesas ou preparo do jantar. “O desafio da comunicação está mais em comunicar às pessoas que precisam do que as que estão disponíveis para ajudar. Já temos uma comunidade disponível para contribuir, muito maior do que as necessidades que chegam até ela. Devemos pensar na filosofia do aplicativo e se ela pode ser utilizada para ajudar em outros problemas, como a necessidade dos demais”, destacou.

    A sexta e última conferência tratou sobre a “Comunicação da Santa Sé e do Papa durante a pandemia e o que será depois da pandemia”, conduzida pela vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé (Vaticano), Cristiane Murray.

    De acordo com ela, “o Papa não nos deu uma resposta fixa acerca do que fazer, mas ele permitiu que o Espírito Santo gerasse em nós a criatividade para fazer o que fosse preciso. Assim, optamos pela transmissão das missas do Papa na Casa Santa Marta, transmitidas diariamente pelo "Vatican News". O Papa passou a entrar todos os dias na nossa casa. Aqui, na Itália, até o canal estatal transmitiu as celebrações. O isolamento não podia implicar em uma distância, o Papa queria estar próximo naquele momento. Essas missas acompanharam a solidão e nos deu muitos resultados inesperados: tivemos mais de 15 milhões de visualizações no YouTube, oito milhões no site e outros milhões incalculáveis na televisão. A partir disso, percebemos que seria um tempo diferente, que a Semana Santa não seria a mesma. Mas já tínhamos respostas de pessoas que não praticavam a fé católica, mas que estavam conosco naquelas missas”, comentou.

    Carlos Moioli


    31/10/2020 - Atualizado em 31/10/2020 00:29

  3. Nos últimos anos, as paróquias têm-se servido, cada vez mais, de metodologias profissionais de marketing para a superação de dificuldades pastorais e administrativas. Para obter um bom resultado da qualidade e quantidade da Pastoral do Dízimo, faz-se necessário conhecer seu cenário. Conhecendo-o, pode-se reestruturar sua ação com uma metodologia de alta eficácia que gere benefícios humanos e financeiros para a comunidade paroquial.

    O termo cenário vem do latim coenatoriu, local onde a família praticava a ceia, momento considerado de grande importância na Antiguidade. Com o tempo, o cenário passou a designar o conjunto de diversos materiais para criar a realidade ou a atmosfera para a ação. Assim sendo, uma Pastoral do Dízimo que não contenha uma boa análise de cenários será fatalmente passível de muitos questionamentos quanto à sua viabilidade.

    É impossível analisar um cenário do dízimo paroquial partindo do zero. É uma tarefa demasiadamente árdua, senão, impossível. Para começar, pense macro. Tal tarefa exige muita oração, criatividade, visibilidade e objetividade.

    É preciso ver o cenário do dízimo paroquial com o olhar de Deus, um olhar que tem como objetivo a salvação. Assim, encontraremos muitos sinais da ação de Deus e poderemos entender melhor os fiéis leigos com suas potencialidades, qualidades e possibilidades, participando eficazmente na ministerialidade eclesial.

    O cenário do dízimo paroquial é cheio de perplexidade. Ninguém conhece ao certo como ele é.
    Contudo, fazendo-se uma análise qualitativa e quantitativa do dízimo, poderemos conhecer melhor e, cada vez, mais sua dinâmica:
     
    1. ANÁLISE QUALITATIVA DO DÍZIMO
    Quanto à análise qualitativa do dízimo, é importante:
    - Diagnosticar seus padrões de excelência;
    - Analisar se os agentes e a comunidade paroquial estão fazendo o que é correto e de forma correta;
    - Avaliar o fluxo de formação, de informação, de conscientização e de materiais;
    - Verificar o grau de participação das pessoas envolvidas, o nível de motivação, de entusiasmo e o grau de cooperação entre os agentes.
     
    Em relação à qualidade, pode-se levantar:
     
    - Alguns pontos fortes como: o bom relacionamento dos agentes com os
    paroquianos; o conhecimento geográfico da paróquia; a participação dos paroquianos; a dedicação e presteza nos trabalhos pastorais; a honestidade e a disposição para treinamento e desenvolvimento.
    - Alguns pontos fracos: baixa conscientização dizimal e a não aplicação de ferramentas gerenciais e de recursos humanos.
     
    2. ANÁLISE QUANTITATIVA DO DÍZIMO
     
    Na análise quantitativa, trabalha-se com números. Os números facilitam a análise real de como está o cenário do dízimo paroquial. É importante conhecer:
     
    a) A população da paróquia;
    b) O número de católicos;
    c) O número de católicos que participam das missas dominicais;
    d) O número de católicos que exercem algum ministério na comunidade paroquial;
    e) O número de dizimistas inscritos;
    f) O número de dizimistas que contribuem no mês;
    g) Os dizimistas efetivos (que contribuem assiduamente);
    h) Os dizimistas desistentes (motivos);
    i) Os dizimistas que contribuem esporadicamente (motivos);
    j) O valor total do dízimo (média);
    k) A média de contribuição por dizimista etc.
    Assim sendo, com estas duas análises da experiência dizimal paroquial, qualitativa e quantitativa, é possível elaborar um roteiro de ações a fim de que a Pastoral do Dízimo seja atuante, dinâmica, eficiente e eficaz. A partir destas análises, ela poderá reestruturar bem sua ação, fazendo com que a comunidade paroquial tenha meios e recursos para ser sinal e instrumento do Reino, investindo nos agentes e nas mediações evangelizadoras.
     
    Diácono Claudino Affonso Esteves Filho
    Coordenador Arquidiocesano da Pastoral do Dízimo


     

    31/10/2020 - Atualizado em 31/10/2020 00:26

  4. Neste artigo prossegue-se na exposição acerca do sentido bíblico-teológico dos evangelhos. Estes quatro textos lapidares são as colunas de toda a Sagrada Escritura, proporcionalmente (infinitamente superiores) à importância do Pentateuco para o Antigo Testamento.

    Nos evangelhos existem vários filões literários, verdadeiros compartimentos sobre a vida e o conhecimento trazidos por Cristo. Eles podem ser visitados a partir da elaboração de algumas perguntas: Quem é este Homem?

    A este compartimento dos evangelhos nós chamamos de ‘cristologia’ (conhecimento de Cristo).

    Quem são estes homens, os Doze, os discípulos, as mulheres, os curados, os pobres? A este compartimento chamamos de ‘Eclesiologia’ (conhecimento da Igreja).

    Quem é esta pomba, este vento, estas línguas de fogo, este testemunhador da verdade? A estes dados chamamos de pneumatologia (a ciência do EspíritoSanto).

    Que gestos e palavras são estes que os discípulos experimentam como forma de participar da ação de Jesus (milagres, sofrimentos, pregação)? A isto nós chamamos de missiologia(ciência da missão cristã).

    Que futuro novo é este que nasce nas palavras e gestos do Ressuscitado? A este tempo novo nós chamamos de escatologia (ciência das coisas definitivamente redimidas).

    E quem é esta Mulher tão grande e silenciosa que percorre toda a vida de Jesus, de Belém a Pentecostes? Esta é a Mariologia (o conhecimento da Mãe de Cristo).

    Em cada evangelho Cristo revela uma face definitiva da múltipla Revelação de Deus, sua Verdade mais definitiva e a mais decisiva para nós (soteriologia = Salvação).

    Ele se fez letra, papel e tinta’para que não o esquecêssemos e, mais ainda, para que a cada ‘leitura’ nos tornássemos o que somos e soubéssemos tratar a Deus, como Pai e aos outros como irmãos! E à terra como criação nova (ecossistema da Vida!).
     
     
                GÊNERO EVANGELHO
    A santa mãe Igreja defendeu e defende firme e constantemente que estes quatro evangelhos, cuja historicidade afirma sem hesitação, transmitem fielmente as coisas que Jesus, Filho de Deus. durante a sua vida terrena, realmente operou e ensinou para salvação eterna dos homens, até ao dia em que subiu ao céu (cfr. Act. 1. 1-2). Na verdade, após a ascensão do Senhor, os Apóstolos transmitiram aos seus ouvintes, com aquela compreensão mais plena de que eles, instruídos pelos acontecimentos gloriosos de Cristo e iluminados pelo Espírito de verdade (2) gozavam (3), as coisas que Ele tinha dito e feito. Os autores sagrados, porém, escreveram os quatro evangelhos, escolhendo algumas coisas entre as muitas transmitidas por palavra ou por escrito, sintetizando umas, desenvolvendo outras, segundo o estado das igrejas, conservando, finalmente, o carácter de pregação, mas sempre de maneira a comunicar-nos coisas autênticas e verdadeiras acerca de Jesus (4). Com efeito, quer relatassem aquilo de que se lembravam e recordavam, quer se baseassem no testemunho daqueles «que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra», fizeram-no sempre com intenção de que conheçamos a «verdade» das coisas a respeito das quais fomos instruídos -Lc. 1, 2-4(DV 19).
    Denomina-se ‘Evangelho’ a um gênero literário de escritos do Novo Testamento que tem apenas quatro exemplares na literatura universal: os Evangelhos segundo de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João.

    Na cronologia dos Escritos do Novo Testamento, com a morte dos Apóstolos e o fim de sua pregação oral, este gênero de escritos apareceu depois das cartas autênticas de Paulo e propôs-se transmitir fatos e palavras da vida de Jesus de Nazaré, que as cartas não tinham referido.

    Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da palavra. Também a mim me pareceu bem, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti segundo a ordem, excelentíssimo Teófilo, para que conheças a solidez daqueles ensinamentos que tens recebido (Lc 1, 1-4).

    Os evangelhos transmitem-nos fatos históricos (Dv 19), mas não de maneira "fria" e "isenta", à maneira da historiografia moderna; os fatos e as palavras de Jesus são contextualizados pela Experiência da Fé Apostólica das Comunidades da primeira geração cristã, entre os anos 30 e 70 d.C.
     


    31/10/2020 - Atualizado em 31/10/2020 00:24

  5. Ainda vivendo as dores e as dificuldades da atual pandemia, a Igreja tem dado o seu testemunho enquanto sinal da esperança e da caridade de Cristo. Muitos são os testemunhos de todo um espírito de fraternidade e alteridade para com os enfermos acometidos pelo novo coronavírus, para com os idosos e demais membros do grupo de risco, bem como com os profissionais da saúde, que com trabalho heroico têm feito uma verdadeira doação de vida diante da crítica situação. Imbuído do mesmo sentimento de Cristo para com os enfermos, o Santo Padre exortava no mês de março: “Rezemos ao Senhor também pelos nossos sacerdotes para que tenham a coragem de sair e ir ao encontro dos doentes, levando a força da Palavra de Deus e a Eucaristia, e de acompanhar os profissionais de saúde, os voluntários, nesse trabalho que estão fazendo”. Em todo o mundo esse apelo foi ouvido, com notícias de sacerdotes que chegaram a falecer infectados, entregando a vida pelos irmãos. Também as mais diversas iniciativas em fazer a mensagem do Evangelho chegar aos corações de todos em meio ao isolamento social e o fechamento dos templos, bem como todo o cuidado com a segurança e saúde dos fiéis ao retornar com as celebrações presenciais demonstram a preocupação da Igreja em ser, à semelhança de nosso salvador, samaritana e servidora de todos.

    O serviço da Igreja aos enfermos, sempre atenta ao apelo de Cristo, que nas páginas evangélicas demonstra todo seu amor pelos mais sofredores, curando diversos deles, é um profético sinal da ação de Deus em seu corpo místico ao longo da história. De fato, dentre os diversos legados da Igreja à civilização moderna está justamente a atenção dispensada aos enfermos. Eusébio de Cesareia, bispo do século IV, na sua obra História Eclesiástica (VII, 22) nos transmite um importante testemunho, uma carta do patriarca de Alexandria, São Dionísio, na qual este apresenta o belo trabalho dos cristãos em favor de seus irmãos enfermos durante a peste que acometeu aquela cidade no século III. Segundo o bispo, “nossos irmãos, porém, em sua maioria, num excesso de caridade e amor fraterno, não se poupavam, uniam-se uns aos outros, visitavam sem precauções os doentes, serviam-nos com diligência, dispensavam-lhes cuidados em Cristo e consideravam desejável partir desta vida com eles. Contaminados pela moléstia dos outros, contraíam a peste por contágio dos seus e aceitavam de bom grado as dores. E muitos, depois de terem cuidado e reconfortado os outros, morriam também eles, assumindo morte semelhante. (...) Os melhores de nossos irmãos, portanto, saíam desta vida deste modo. Eram sacerdotes, diáconos, leigos, dignos de grande louvor, pois tal morte, consequência de grande piedade e fé robusta, em nada desmerecia do martírio.”

    A caridade dispensada aos doentes assemelha-se à caridade dos mártires, assim entende a Igreja desde a Antiguidade. Esse testemunho dos cristãos foi de vital importância para que diante da sociedade romana os pagãos percebessem que nos adeptos daquela religião havia algo diferente: a caridade, dom sobrenatural dada aos batizados pelo próprio Deus. De fato, segundo São Dionísio, enquanto os cristãos não poupavam a própria vida, “o comportamento dos pagãos era inteiramente oposto. Expulsavam os que começavam a adoecer; fugiam dos seus mais queridos; jogavam nas ruas homens semivivos; rejeitavam cadáveres insepultos; fugiam da transmissão e do contato da morte, mas era difícil evitá-la, mesmo àqueles que empregavam todos os meios.” No século III, aqueles cristãos foram sinal de Cristo em meio aos pagãos do Império Romano através do serviço aos enfermos. Também hoje devemos nós ser sinal de Cristo em meio a um mundo que já há muito tem se afastado do Evangelho.

    Ao longo da Idade Média, as iniciativas em favor dos debilitados em sua saúde só cresce. Unidas às catedrais vão surgindo casas de acolhimento para tratar dos doentes, muitas confiadas a ordens religiosas. O primeiro hospital de Paris e um dos mais antigos do mundo ainda em funcionamento, o chamado Hôtel-Dieu (o “hotel” ou “albergue” de Deus), foi fundado pelo bispo São Landerico no século VII. Ali podiam se abrigar 3500 pacientes que recebiam comida e cuidados médicos. Os mosteiros tinham o chamado Hospitale Pauperum (“hospital dos pobres”) no qual os próprios monges, versados em medicina, atendiam a todos.

    No século IX, começam a surgir as ordens hospitalares, sendo uma das mais antigas a Ordem Hospitalar de São João de Jerusalém, fundada na cidade santa durante as cruzadas. No século XII, o Papa convida uma dessas ordens a fundar, em Roma, o Hospital do Espírito Santo, em funcionamento ainda hoje. Aliás, em Roma, do século XI ao século XV, a Igreja fundou pelo menos 30 hospitais, demonstrando, assim, que a preocupação com os enfermos é ao longo da história prioridade na ação pastoral.

    Ainda poderíamos citar aqui São João de Deus, que no século XVI fundou a Ordem dos Irmãos Hospitaleiros, bem como São Camilo de Lellis, fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos, duas ordens até hoje devotadas ao serviço do Cristo sofredor presente em cada doente. Ambos foram proclamados por Leão XIII, em 1886, como “celestes protetores de todos os enfermos e hospitais do mundo católico.”

    Servir aos enfermos, como podemos perceber nesses poucos e breves exemplos, é um imperativo constante na história da Igreja, fiel ao seu fundador, o Bom Pastor sempre pronto a cuidar da ovelha ferida, a ponto de elevar o cuidado dos doentes à dignidade de Sacramento através da Unção dos enfermos. Que esses belos testemunhos sejam incentivo para que nós, cristãos do século XX, continuemos a dar ao mundo esse testemunho que tanto surpreendeu os pagãos na Antiguidade, que edificou a cristandade medieval e legou ao mundo moderno e contemporâneo o cuidado e o zelo com a vida humana desde a concepção até a morte natural, principalmente nos momentos de maior sofrimento pela fragilidade causada pelas enfermidades. Que no ocaso de nossa vida tenhamos a graça de ser acolhidos por Cristo e d'Ele ouvir: “Vinde benditos de meu Pai! Pois eu estava doente e cuidastes de mim.” (Cf. Mt 25, 33.36).
     
    Eduardo Douglas Santana Silva,
    seminarista da etapa formativa discipulado III, 3 º ano de filosofia



    31/10/2020 - Atualizado em 31/10/2020 00:22