Arquidiocese do Rio

  1. A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro se despede nesta quarta-feira, 13 de janeiro, do Eminentíssimo Senhor Cardeal Dom Eusébio Oscar Scheid – SCJ, Arcebispo Emérito de nossa Arquidiocese, em virtude de insuficiência respiratória aguda, mais uma vítima da Covid-19, que já ceifou mais de 204 mil vidas somente em solo brasileiro. Em orações, peço a Deus Pai Misericordioso que o receba em seus braços para a ressurreição e glória da vida eterna. Amou a Cristo e à Igreja oferecendo sua vida pelos irmãos Bispos, padres, diáconos, consagrados e povo de Deus como ele mesmo deixou por escrito em seu testamento.

    Logo que assumi a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, como sucessor do Cardeal Scheid, o convidei para que residisse dentro do território de nossa Arquidiocese. Ele mesmo me disse que já havia adquirido uma residência própria na cidade de São José dos Campos, SP – onde exerceu seu bispado pela primeira vez e instalou aquela importante Igreja Particular – e que queria fixar residência naquela cidade do Vale do Paraíba. Lá viveu até ser chamado por Deus, hoje, no Hospital São Francisco, em Jacareí, SP, onde foi internado depois de ter tido alta de outro hospital e permanecer em sua residência bem assistido pelas irmãs e enfermeiros, quando pude também visita-lo no início deste mês. Por desejo expresso do Cardeal Scheid, transmitido às religiosas do Instituto do Bom Conselho que cuidaram, com esmero e dedicação de sua emeritude, o seu sepultamento se deu na cripta da Catedral de São Dimas, em São José dos Campos, SP. Em conversa telefônica com Dom César Teixeira, Bispo de São José dos Campos, SP, Sua Excelência me disse que essa era o entendimento da Diocese de São José dos Campos, além da observância do protocolo deste tempo de pandemia. Foi um rápido sepultamento, sem velório, com poucas pessoas na cripta pois o acesso era restrito ao sepultamento, com todas as regras de segurança impostas pelo poder público, sendo que depois do sepultamento teriam as celebração da Santa Missa na Catedral de São Dimas em sufrágio da alma do saudoso purpurado. Aqui no Rio de Janeiro, neste dia do seu falecimento, celebramos a primeira missa em sufrágio da alma do Cardeal Scheid, às 18h10, dentro do sétimo dia da Trezena de São Sebastião, na Capela de São Sebastião, em Inhoaíba exatamente no horário de seu sepultamento.

    Pelas mãos do Papa São João Paulo II, Dom Eusébio se tornou Cardeal em 21 de outubro de 2003, durante o Consistório Ordinário Público, que também criou 30 novos cardeais. Foi lhe dado o título de Cardeal Presbítero, com o título de Santos Bonifácio e Aleixo. Primeiro bispo da Diocese de São José dos Campos, quando governou aquela Diocese até 23 de janeiro de 1991, foi transferido para Arcebispo Metropolitano de Florianópolis. No dia 25 de julho de 2001 foi nomeado Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, tomando posse no dia 22 de setembro do mesmo ano. Governou a Arquidiocese até o dia 27 de fevereiro de 2009, quando fui nomeado pelo Papa Bento XVI seu sucessor. Assim que se tornou emérito passou a viver no interior paulista, no Vale do Paraíba, na cidade de São José dos Campos, SP, sua primeira Diocese da qual ele é também o primeiro bispo. Com gratidão e amor daqueles que tiveram a graça de compartilhar sua espiritualidade elevada, celebrou o Jubileu de Diamante de sua Ordenação Presbiteral recentemente, em 3 de julho de 2020.

    Trajetória do Cardeal Scheid como Arcebispo do Rio de Janeiro: Principais feitos no Rio de Janeiro

    Plano de Pastoral
    Ele aprovou, em novembro de 2004, com cinco capítulos e validade para o quadriênio 2005 a 2008, o 10º Plano de Pastoral de Conjunto, com o tema “Ninguém te ama como eu!”. Entre as prioridades pastorais, estava a Iniciação Cristã, que depois resultou na publicação do Diretório da Iniciação Cristã para Jovens e Adultos.

    Criação de paróquias
    Para uma ação pastoral mais eficaz, Dom Eusébio criou 10 novas paróquias. São elas: Nossa Senhora da Conceição, em Campo Grande (2001); Santa Luzia, em Gardênia Azul (2003); Nossa Senhora dos Navegantes, em Padre Miguel (2005); Nossa Senhora Aparecida, na Ilha do Governador (2006), Nossa Senhora Aparecida, na Penha Circular (2006), São Judas Tadeu, em Senador Camará (2006), e Nossa Senhora da Conceição, na Pavuna (2008).

    Ministérios
    Dom Eusébio criou os ministérios do Acolhimento e da Visitação e elevou à categoria de ministério o trabalho da Pastoral da Consolação e Esperança. Também se empenhou na formação da Pastoral da Comunicação nas paróquias e no fortalecimento da Pastoral da Família, lutando pela valorização da vida, a partir de sua concepção.

    Ordenação de bispos
    Sucessor dos apóstolos, ordenou nove bispos para a Igreja no Brasil, entre eles, seis como seus auxiliares. Em 2003: Dom Assis Lopes (Bispo auxiliar emérito de São Sebastião do Rio de Janeiro), Dom Dimas Lara Barbosa (Arcebispo de Campo Grande, MS) e Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ (Arcebispo de Florianópolis, SC); e, em 2005: Dom Edson de Castro Homem (Bispo de Iguatú, CE), Dom Antônio Augusto Dias Duarte (Bispo Auxiliar) e Dom Edney Gouvêa Mattoso (Bispo Emérito de Nova Friburgo, RJ).

    Seminário Propedêutico
    Dom Eusébio foi protagonista de uma novidade no campo da formação dos futuros sacerdotes na Arquidiocese do Rio. Foi de sua iniciativa o Seminário Propedêutico Rainha dos Apóstolos, criado na Solenidade da Imaculada Conceição, dia 8 de dezembro de 2003, com o objetivo de preparar, no período de um ano, os jovens vocacionados para ingressarem na vida acadêmica, a formação presbiteral de nível superior.

    Escola diaconal
    Em uma nova etapa na história do diaconato na Arquidiocese do Rio, Dom Eusébio criou, no dia 12 de fevereiro de 2003, a Escola Diaconal Santo Efrém. Como complemento, aprovou, no dia 20 de maio de 2004, os estatutos da Comissão Arquidiocesana dos Diáconos Permanentes (Cadiperj).
    Nos primeiros anos, a escola funcionou na Paróquia São Joaquim, no bairro Estácio, num espaço próprio de formação. Dom Eusébio ordenou 75 diáconos, em cinco turmas, de 2003 a 2008. Atualmente, a escola funciona no complexo do Seminário São José.

    Santuário Cristo Redentor
    Na Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, em 12 de outubro de 2006, Dom Eusébio criou o Santuário Cristo Redentor, no morro do Corcovado. Sinal da sensibilidade pastoral, foi o presente que ele deu à Igreja no Rio de Janeiro pelo aniversário de 75 anos do monumento, inaugurado em 1931, pelo seu predecessor, o então Cardeal Sebastião Leme da Silveira Cintra.

    Vicariatos episcopais
    Dom Eusébio foi responsável pela criação de três vicariatos episcopais na Arquidiocese do Rio: um territorial e dois não territoriais, com a finalidade de colaborar com o governo diocesano, de forma descentralizada, organizando melhor as relações e atividades pastorais. São eles:

    Caridade Social
    O Vicariato Episcopal para a Caridade Social foi constituído no dia 30 de abril de 2002. O vigário episcopal escolhido foi o cônego Manuel de Oliveira Manangão, que na época era responsável pela Pastoral do Trabalhador, e pároco na Rocinha, à frente da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem.

    Comunicação Social
    Durante a reunião do Conselho Presbiteral, no dia 17 de junho de 2005, Dom Eusébio anunciou a criação do Vicariato Episcopal para a Comunicação Social (Vicom), com o objetivo de integrar todos os segmentos de comunicação da arquidiocese.

    Vicariato Jacarepaguá
    A criação de novas comunidades paroquiais fez surgir o Vicariato Episcopal Jacarepaguá, em 1º de abril de 2006. A maioria das paróquias do novo vicariato pertencia aos vicariatos Suburbano e Sul. Ficaram integradas ao sétimo vicariato da Arquidiocese, paróquias situadas nos bairros da Barra da Tijuca, Itanhangá, Jacarepaguá, Recreio dos Bandeirantes, Rocinha, São Conrado e Vargem Grande.

    Sucessor dos Apóstolos
    Foi eleito bispo de São José dos Campos (SP), no dia 18 de fevereiro de 1981, pelo Papa João Paulo II, quando adotou o lema “Deus é bom”. Sua ordenação episcopal foi em São José dos Campos, no dia 1º de maio de 1981, pelas mãos de Dom Carmine Rocco, núncio apostólico no Brasil, Dom Geraldo Maria de Morais Penido e Dom Honorato Piazera, SCJ. Nesta diocese, fundou o Instituto de Filosofia Santa Teresinha e instalou a residência teológica Padre Rodolfo Komorek.

    Em 23 de janeiro de 1991 foi transferido para a Arquidiocese de Florianópolis, onde permaneceu por dez anos. Nesta arquidiocese, onde tomou posse no dia 16 de março do mesmo ano, criou o Seminário de Teologia Convívio de Emaús e o Seminário de Filosofia Edith Stein, inaugurou o Instituto Social João Paulo II e instituiu a Escola de Ministérios. Também presidiu a criação das dioceses de Criciúma e Blumenau.

    Arcebispo do Rio de Janeiro
    No dia 25 de julho de 2001 foi transferido para a Arquidiocese do Rio de Janeiro, sucedendo o Cardeal Eugenio de Araujo Sales. Tomou posse em 22 de setembro do mesmo ano. Tornou-se cardeal em 21 de outubro de 2003. Foi criado cardeal presbítero, com o título da Basílica dos Santos Bonifácio e Aleixo.

    Formador
    Antes de ser ordenado bispo, o Cardeal Scheid foi professor no Seminário Cristo Rei e Seminário Regional do Nordeste, Recife, em Pernambuco (1964-1965); professor de Teologia Dogmática e Liturgia no Instituto Teológico de Taubaté-SP (1966-1981) e Aparecida; coordenador da Catequese de Taubaté-SP (1970-1974); diretor da Faculdade de Teologia em Taubaté-SP; professor convidado da PUC-SP, para lecionar Cultura Religiosa (1966-1968).

    A serviço da Igreja
    Como bispo, realizou os seguintes serviços: Bispo de São José dos Campos (1981-1991); arcebispo de Florianópolis (1991-2001); presidente do Regional Sul 4 – CNBB (1994-1998); membro da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB durante 12 anos; ordinário para os fiéis de Rito Oriental sem ordinário próprio (2001); responsável pela Pastoral Familiar no Regional Sul 1 durante 8 anos.

    No Vaticano foi conselheiro da Pontifícia Comissão para a América Latina, em 25 de novembro de 2002; membro do Pontifício Conselho de Comunicação Social, em 29 de novembro de 2003; Legado Papal, de S. Santidade Bento XVI, ao XV Congresso Eucarístico Nacional, em Florianópolis (SC), de 18 a 21 de maio de 2006.

    Na CNBB, foi membro do Conselho Permanente; membro da Comissão Episcopal para o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida; presidente do Regional Leste 1 – CNBB (2003-2007).

    Também foi membro do Conselho de Cardeais para o estudo dos problemas organizacionais e econômicos da Santa Sé em 17 de janeiro de 2007. Foi o ordenante principal de nove bispos, a maioria, auxiliares no Rio de Janeiro.

    Obras
    Dom Eusébio possui os seguintes livros publicados: Tese de láurea sobre a Cristologia de Ubertino da Casale em seu contexto histórico; Preparação para o Casamento e para a Vida Familiar; Introdução à Pastoral Familiar; e Ministério do Acolhimento.

    Nossa oração pelo seu eterno descanso!

    É uma perda dolorosa, que se soma aos padres e bispos brasileiros que tiveram suas vidas interrompidas nesta pandemia, que já se transformou em uma tragédia incalculável que afeta direta ou indiretamente todas as famílias. Centenas de religiosos e religiosas também se infectaram, muitos deles durante o trabalho pastoral incansável para anunciar o Evangelho e levar a mensagem de Cristo a todas as pessoas sem distinção, como manda seus ensinamentos. Apesar de todos os cuidados adotados pela Igreja no Brasil, como o distanciamento social, celebrações online, não deixamos de evangelizar e levar a palavra das sagradas escrituras aos nossos irmãos e irmãs.

    Dom Eusébio, em seus 60 anos de ministério presbiteral e 40 anos dedicados à vida episcopal, participou ativamente da história e deixa o seu legado à Igreja. Nascido em Luzerna, no estado de Santa Catarina, no dia 8 de dezembro de 1932, o religioso da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, Dehonianos, fez a sua Profissão Religiosa em 02 de fevereiro de 1954. Conforme relatos históricos da Diocese de São José dos Campos, dom Eusébio estudou Filosofia em Brusque, SC, (1954) e na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, Itália (1955-1957), onde também estudou Teologia (1957-1964). Foi ordenado presbítero no dia 03 de julho de 1960, em Roma. Continuou os estudos de pós-graduação e recebeu os títulos no grau de Mestre e Doutor em Cristologia. Foi eleito bispo de São José dos Campos em 11 de fevereiro de 1981, onde ocorreu a sua ordenação episcopal em 1º de maio de 1981. Em 23 de janeiro de 1991 foi transferido para a Arquidiocese de Florianópolis. Em 2001 foi transferido para a Arquidiocese do Rio de Janeiro.

    Missas em sufrágio de sua alma:
    1. Missa com o clero do Rio de Janeiro – na missa do Rio Celebra, dia 16 de janeiro, às 9h, na Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ.

    2. Missa de 7º Dia – na Igreja da Candelária, no dia 19 de janeiro, às 18h.
    Ambas as celebrações serão transmitidas: a primeira pela Rede Vida de Televisão e a segunda pelas mídias da Arquidiocese, e pela Web TV Redentor.

    Legado e ação de graças:
    Com uma vida intensa e incansável, marcada pela preocupação na formação do clero, no incentivo à evangelização e na organização da pastoral, sua morte não deve ser motivo para contrariedades humanas, mas sim, para compreendermos o projeto de Deus para nós, a promessa da vida eterna ao lado de Cristo.

    Que São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, conforte seus familiares, amigos e todos aqueles que tiveram a graça de sua convivência. Agradeço a Deus pelo dom da vida do Cardeal Eusébio Oscar Scheid – SCJ e por todo o trabalho realizado em nossa Arquidiocese e em todos os lugares que serviu.

    Que nos unamos em orações pelo descanso eterno de Dom Eusébio e de todos os nossos irmãos e irmãs que partiram vítimas da Covid-19.
    São Sebastião, rogai por nós!

    Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
    Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




    13/01/2021 - Atualizado em 14/01/2021 11:32

  2. Nota de falecimento do Cardeal Eusébio Oscar Scheid, arcebispo emérito do Rio de Janeiro

    “Devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos,

    para se tornar um sumo sacerdote misericordioso” (Hb 2,17)

    O arcebispo emérito do Rio de Janeiro, Cardeal Eusébio Oscar Scheid, entregou serenamente sua alma a Deus, no inicio da tarde desta quarta-feira, 13 de janeiro, após longo período de enfermidade, em São José dos Campos (SP), onde residia.

    Perfil
    Dom Eusébio nasceu em Luzerna, Santa Catarina, no dia 8 de dezembro de 1932, filho de Alberto Reinaldo Scheid e de Rosália Joana Scheid.
    Cursou o ensino fundamental e o ensino médio no Seminário dos Padres do Coração de Jesus em Corupá (SC). Religioso da Congregação dos Padres do Coração de Jesus (Dehonianos), fez a sua profissão religiosa em 2 de fevereiro de 1954. Estudou Filosofia em Brusque, em Santa Catarina (1954) e na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, Itália (1955-1957), onde também estudou Teologia (1957-1964). Foi ordenado presbítero no dia 3 de julho de 1960, em Roma, pelas mãos de Dom Inácio João Dal Monte, OFM, bispo de Guaxupé. Continuou os estudos de pós graduação e recebeu os títulos no grau de mestre e doutor em Cristologia.

    Sucessor dos Apóstolos
    Foi eleito bispo de São José dos Campos (SP), no dia 18 de fevereiro de 1981, pelo Papa João Paulo II, quando adotou o lema “Deus é bom”. Sua ordenação episcopal foi em São José dos Campos, no dia 1º de maio de 1981, pelas mãos de Dom Carmine Rocco, núncio apostólico no Brasil, Dom Geraldo Maria de Morais Penido e Dom Honorato Piazera SCJ. Nesta diocese, fundou o Instituto de Filosofia Santa Teresinha, e instalou a residência teológica Padre Rodolfo Komorek.

    Em 23 de janeiro de 1991 foi transferido para a Arquidiocese de Florianópolis, onde permaneceu por dez anos. Nesta arquidiocese, onde tomou posse no dia 16 de março do mesmo ano, criou o Seminário de Teologia Convívio de Emaús e o Seminário de Filosofia Edith Stein, inaugurou o Instituto Social João Paulo II e instituiu a Escola de Ministérios. Também presidiu a criação das dioceses de Criciúma e Blumenau.

    Arcebispo do Rio de Janeiro
    No dia 25 de julho de 2001 foi transferido para a Arquidiocese do Rio de Janeiro, sucedendo o Cardeal Eugenio de Araujo Sales. Tomou posse em 22 de setembro do mesmo ano. Tornou-se cardeal em 21 de outubro de 2003, quando o Papa João Paulo II presidiu o Consistório Ordinário Público para a criação de 30 novos Cardeais. Foi criado cardeal presbítero, com o título da Basílica dos Santos Bonifácio e Aleixo. Participou do conclave que elegeu o papa Bento XVI. Tornou-se arcebispo emérito no dia 27 de fevereiro de 2009, sendo sucedido pelo Cardeal Orani João Tempesta. Atualmente reside em São José dos Campos, onde foi seu primeiro bispo diocesano.

    Formador
    Antes de ser ordenado bispo, o Cardeal Scheid foi professor no Seminário Cristo Rei e Seminário Regional do Nordeste, Recife, em Pernambuco (1964-1965); professor de Teologia Dogmática e Liturgia no Instituto Teológico de Taubaté-SP (1966-1981) e Aparecida; coordenador da Catequese de Taubaté-SP (1970-1974); diretor da Faculdade de Teologia em Taubaté-SP; professor convidado da PUC-SP, para lecionar Cultura Religiosa (1966-1968).

    A serviço da Igreja
    Como bispo, realizou os seguintes serviços: Bispo de São José dos Campos (1981-1991); arcebispo de Florianópolis (1991-2001); presidente do Regional Sul 4 – CNBB (1994-1998); membro da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB durante 12 anos; ordinário para os fiéis de Rito Oriental sem ordinário próprio (2001); responsável pela Pastoral Familiar no Regional Sul 1 durante 8 anos.

    No Vaticano foi conselheiro da Pontifícia Comissão para a América Latina, em 25 de novembro de 2002; membro do Pontifício Conselho de Comunicação Social, em 29 de novembro de 2003; Legado Papal, de S. Santidade Bento XVI, ao XV Congresso Eucarístico Nacional, em Florianópolis (SC), de 18 a 21 de maio de 2006.

    Na CNBB, foi membro do Conselho Permanente; membro da Comissão Episcopal para o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida; presidente do Regional Leste 1 – CNBB (2003-2007).

    Também foi membro do Conselho de Cardeais para o estudo dos problemas organizacionais e econômicos da Santa Sé em 17 de janeiro de 2007. Foi o ordenante principal de nove bispos, a maioria, auxiliares no Rio de Janeiro.

    Obras
    Dom Eusébio possui os seguintes livros publicados: Tese de láurea sobre a Cristologia de Ubertino da Casale em seu contexto histórico; Preparação para o Casamento e para a Vida Familiar; Introdução à Pastoral Familiar; e Ministério do Acolhimento.




    13/01/2021 - Atualizado em 13/01/2021 14:30

  3. Os comentários bíblicos de Santo Tomás, 1225-1274, nasceram de sua atividade de magistério universitário. Pela necessidade dos programas de ensino, tais como eram, por exemplo, na Universidade de Paris, Tomás comentou o livro de Isaías, o de Jeremias, Jó, os evangelhos, múltiplas epístolas de Paulo. Destaco aqui seu comentário aos Salmos, provavelmente redigido no final de sua vida e que ficou incompleto. O interesse e a importância do livro dos Salmos são enfatizados por Tomás, no prólogo de seu comentário, nestes termos: “A matéria do livro dos Salmos é universal. Na verdade, enquanto cada livro da Sagrada Escritura contém assuntos particulares, o livro dos Salmos contém o material geral de toda a teologia; e é isto que faz Dionísio dizer, em seu livro "Hierarquia Celeste", que ‘compreender os cânticos divinos’, isto é, o livro dos Salmos, ‘é cantar todas as ações divinas e sagradas’. Portanto, o assunto é indicado por estas palavras: ‘por toda a sua obra’, porque este livro trata de toda a obra divina” (Tomás de Aquino, In Psalmos Davidis Expositio, https://www.corpusthomisticum.org/cps00.html, proemium, fonte que seguiremos daqui em diante).

    Efetivamente, os salmos são o cântico de louvor de toda a obra da criação e da redenção. E, na economia da salvação, as alianças de Deus com seu povo, a páscoa judaica, as festas litúrgicas em geral são celebradas e rememoradas em forma de louvor. E, como para o cristão, os mistérios do Antigo Testamento são prefigurações da vida de Jesus, do Messias, e da economia salvífica do Pai e do Espírito Santo na Pessoa de Jesus e de seu Corpo Místico, a Igreja, os salmos são a celebração em forma de louvor de toda esta economia salvífica que ainda hoje se faz presente naqueles que os rezam.

    Esta é a razão pela qual celebramos o Batismo de Jesus, cantando o salmo 28 - 29, no texto hebraico -, o ‘Hino do Senhor na Tempestade’. Esta tempestade é descrita no salmo de modo gradual, partindo de trovões, relâmpagos, ventos, grandes águas, até o dilúvio. Essas forças naturais, às quais se seguem grandes destruições, desembocam, contudo, na paz. Tanto as forças naturais como a pacificação da natureza são entendidas como a voz de Deus que dá força e pacifica os povos.

    Para Tomás, este salmo está dividido em duas partes. I. Primeiramente, temos um convite à ação de graças a Deus, como se lê no primeiro versículo: ‘Rendei ao Senhor, filhos de Deus, rendei ao Senhor glória e poder’. E Tomás explica: “Ao falar do dever de oferecer louvor a Deus por meio de ações de graças, o salmista indica três coisas: primeiro, a quem oferecer, quem oferece e, finalmente, o que se tem a oferecer. Desta forma, tudo deve ser oferecido a Deus, pois somente Deus merece nossa oferta, conforme se diz na Escritura: ‘Tudo é teu, e é da tua mão que recebemos o que te demos’, 1Cr 29, 14. Por outro lado, são os filhos de Deus que devem oferecer a Deus seus dons, pois ‘o Altíssimo não aprova os dons de homens iníquos’. E continua com a vinculação do salmo com as mais importantes passagens bíblicas relativas ao tema do dom: “Assim se lê em Gn 4, 4: ‘O Senhor olhou primeiro para Abel e depois para os seus dons’, pois o homem primeiro deve agradar a Deus e só depois fazer sua oferta. E é pela fé que o salmista diz ‘filhos de Deus’: ‘E a todos os que o receberam, deu poder para se tornarem filhos de Deus, àqueles que creem no seu nome’, Jo 1, 12. Pode-se dizer o mesmo pela caridade: ‘Vede que caridade o Pai teve por nós, querendo que sejamos chamados filhos de Deuse realmente o sejamos!’ Enfim, pelas boas obras: ‘Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus’ Rm 8, 15”. Ou seja, aqueles que oferecem seus dons a Deus são conduzidos pelo Espírito Santo de Deus.

    E que oferta fazemos a Deus? Os bens materiais do sacrifício são meros sinais dos bens espirituais que devem ser oferecidos em ação de graças a Deus, de modo que o verdadeiro sacrifício é o espiritual: “O sacrifício material foi realizado com três espécies de animais com bois, cabras e carneiros; e, acima de todos os outros animais, era acima de tudo um cordeiro que geralmente era sacrificado. É por isso que no Êxodo 29 se relata que todas as manhãs e todas as noites um cordeiro era sacrificado, pois, por meio do cordeiro, se representava, sobretudo e expressamente, o Cristo: ‘Aqui está o Cordeiro de Deus’, Jo 1, 29”.

    ‘Adorai o Senhor’ (v. 2): aqui se explica o sacrifício espiritual, pois o salmista nos ensina como devemos darglória a Deus ecomo lhe devemos a honra: “O próprio Deus é glorioso, por isso devemos glória a ele, continua o salmo: ‘E glória ao Senhor por seu nome’. Ele mesmo é glorioso em si mesmo, mas seu nome deve ser glorioso em nós, isto é, ele deve ser glorioso em nosso conhecimento. E porque ele mesmo é glorioso e resplandecente em nós, devemos homenageá-lo. Portanto, ‘adorai o Senhor em seu santo átrio’, isto é, na Igreja, que é como um átrio celestial. Ou,‘em seu átrio’, isto é, no espírito: ‘Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade’, Jo 4, 23”.

    II. ‘Voz do Senhor sobre as águas, o Deus de majestade trovejou, o Senhor está sobre as águas abundantes.Voz do Senhorpoderosa, voz do Senhor magnificente’ (v. 3-4). Na segunda parte do salmo, as bênçãos e os benefícios divinos são, por um lado, rememorados e, por outro, são projetados no futuro das nações. Em ambos os casos, a água é tomada como sinal desses benefícios passados e futuros: “As bênçãos concedidas podem ser explicadas figurativa e misticamente... Na primeira parte desses versículos, o salmista diz que a voz, ou seja, a ordem do Senhor, estava sobre as águas do mar, que se fendeu, como está relatado no livro do Êxodo. O sentido místico deste versículo, segundo o salmista, “indica um duplo benefício, o da conversão e o dos dons que são concedidos aos convertidos. (...) Os homens são comparados às águas, porque ‘são como as águas que correm e não voltam’, como é relatado em 2 Reis 14. É por isso que a voz se manifesta sobre as águas, ou seja, a pregação do Senhor é feita sobre o povo dos judeus, porque pela doutrina de Deus, ainda não encarnada, mas esperada, os judeus são convertidos a Deus. Sobre a conversão das nações, ele continua dizendo: ‘o Deus de majestade trovejou’ (v. 3). O trovão forma-se nas nuvens, significando a própria Encarnação, que é como uma nuvem: ‘Eis que o Senhor subirá numa leve nuvem’ Is 19, 1. Assim, o Deus majestoso trovejou, isto é, o Todo-Poderoso trovejou ao pregar sob o véu da carne: ‘Deus trovejará maravilhosamente com sua voz’. E mais:‘sobre as águas abundantes’ (v. 3), porque a voz do Senhor encarnado não era apenas sobre os judeus, mas também sobre as nações: ‘Eu vos estabeleci como luz das nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra’, Is 49, 6. Ou seja,isto ocorre pelas águas do batismo.Por isso, este salmo é cantado desde o tempo em que Cristo foi batizado”.

    ‘O Senhor habita o dilúvio, o Senhor se assentará como rei para sempre’ (v. 10): “Em hebraico, diz-se: ‘O Senhor assenta-se sobre o dilúvio’. E o sentido é claro, porque Ele fez isso em relação ao povo de Israel. Ele não exerceu esse poder uma vez (no dilúvio)? Além disso, seus julgamentos foram manifestos desde a criação do mundo e, por isso, o salmista lembra esse julgamento manifesto, o qual, por causa do pecado dos homens, acarretou o dilúvio. (...) O dilúvio inundou a terra, que foi esvaziada de seus habitantes. Posteriormente, contudo, o Senhor tornou a habitar a terra para o crescimento dos homens. No sentido místico, podemos ler este versículo de três maneiras. De acordo com um primeiro modo (...), só aqueles que estavam na arca de Noé habitaram o dilúvio; e, pela arca de Noé, quer-se representar a Igreja e os santos que nela estão, os quais vivem com segurança em meio ao dilúvio das tribulações”. Por outro lado, pode-se entender o contrário, isto é, como se o dilúvio habitasse seu templo. O dilúvio é o mundo, e os carnais são os mundanos: ‘Por um dilúvio aniquilará este lugar’ Na 1, 8. Assim, o Senhor encherá seu templo com o dilúvio e, quando todos se converterem, o rei aí se assentará eternamente, como comentamos acima. E, ainda de outra forma, o Senhor habita o dilúvio, isto é, pelas águas batismais, nas quais ele habita por efeito de sua graça”.

    Enfim, Tomás mostrou-nos que a água divina está presente em toda a economia da salvação: ela purifica, cura, protege, converte, transforma, dá vida. Ainda quando turbulenta, é o Espírito Santo da Paz que repousa sobre ela e a comanda, conforme o versículo final: ‘O Senhor dará fortaleza a seu povo, o Senhor abençoará o seu povo, dando-lhe a paz’.
     
     
     
    Carlos Frederico Calvet da Silveira professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio



     
     
     

    10/01/2021 - Atualizado em 11/01/2021 02:06

  4. Um dia, lendo o “Livro da vida”, fiquei mexida com Santa Teresa de Ávila (1515-1582) pela forma como ela se derretia por São José, falando sobre como a sua intercessão foi importante nos momentos importantes de sua vida:
     
    “tomei por advogado e senhor ao glorioso São José e encomendei-me muito a ele. Vi claramente que, tanto desta necessidade como de outras maiores de honra e perda de alma, este Pai e Senhor meu me tirou com maior bem do que eu lhe sabia pedir. (...) É coisa de espantar as grandes mercês que Deus me tem feito por meio deste bem aventurado Santo (...) A outros santos parece ter dado o Senhor graça para socorrerem numa necessidade; deste glorioso santo tenho experiência que socorre em todas. O Senhor nos quer dar a entender que, assim como lhe foi sujeito na terra - pois como tinha nome de pai, embora sendo aio, O podia mandar -, assim no Céu faz quanto Lhe pede. Isto têm visto, por experiência, algumas outras pessoas, a quem eu dizia para se encomendarem a ele. E assim há muitas que lhe são devotas, experimentando de novo esta verdade..." (Capítulo 6, Pág 68-69 )
     
    A leitura me desestabilizou positivamente na época: que sentimento é esse experienciado por Santa Teresa, a primeira doutora da Igreja, reformadora do Carmelo!?

    Jamais havia experimentado a gratidão de forma tão profunda, por isso eu não compreendia. Era sobre gratidão que a doutora estava falando, sobre confiança, certeza de que existia alguém, escolhido por ela, que intercedia e a acompanhava nas alegrias e nos momentos difíceis. O tempo passou, muita coisa aconteceu e um grande acerto foi ter tomado São José como meu amigo.

    Quando eu pensava no projeto de salvação só enxergava Maria; o seu "sim" a Deus, sua coragem e santidade, a doação de corpo e alma para que o Menino pudesse ser acolhido em Si, José para mim de certa forma ficava em segundo plano.

    Até que comecei a refletir mais profundamente sobre esse homem simples, humilde e justo, que “viveu pela fé”, sem a qual “é impossível agradar a Deus” (cf. Hab 2,3; Rm 1,17; Hb 11,6)..

    Um velho e silencioso carpinteiro que não tinha aparentemente nada para oferecer, mas que foi fundamental para que os planos de Deus se concretizassem. Um homem que se permitiu compreender. O anjo apareceu e falou olhando nos olhos de Maria, mas José precisou acreditar em um sonho, o que o fez com resignação e resiliência mudar os seus planos. Pouco falou, mas muito agiu, perdoou, acolheu, aceitou.

    Para Santo Agostinho, doutor da Igreja, os santos são como as estrelas, mas São José ele compara ao Sol, que Deus confiou Suas maiores riquezas: Seu filho Jesus e Maria Imaculada.

    Emociono-me quando observo a imagem da Sagrada Família e olho para José com o Menino que ele amou e cuidou nos braços. O carpinteiro ensinou não apenas uma profissão, o ensinou principalmente a ser um ser humano. José foi pai por escolha, por livre e espontânea vontade, mas também marido e, de certa forma, “filho”. Pela idade avançada que tinha, certamente precisou de cuidados. José, como diz a música interpretada por Eugênio Jorge, “tão simples, tão pequeno, um carpinteiro e nada mais”, poderia ter dito "não" ao ser escolhido para ser pai do Filho de Deus, mas, por amor, não o fez.

    O Papa Pio IX, em 1870, declarou São José Padroeiro da Igreja Universal com o decreto “Quemadmodum Deus”. E para celebrar os 150 anos dessa declaração, o Papa Francisco decretou, em 8 de dezembro de 2020, o ano de 2021 como o Ano de São José, com a Carta apostólica “Patriscorde – Com coração de Pai”, até 8 de dezembro de 2021.

    Sensível às causas e consequências da pandemia, Papa Francisco escreve que a Covid-19 nos fez compreender a importância das pessoas comuns, como São José, “o homem que passa desapercebido, o homem da presença cotidiana discreta e escondida”, pessoas que, distantes dos holofotes, exercitam todos os dias paciência e infundem esperança, semeando corresponsabilidade.

    José é exemplo para homens, e mulheres também, do nosso tempo, pois é “pai no acolhimento”, porque “acolhe Maria sem colocar condições prévias”, e é também um homem confiante no Senhor, que acolhe em sua vida os acontecimentos que não compreende de maneira corajosa e forte, que provém “da fortaleza que nos vem do Espírito Santo”.

    Segundo o Santo Padre, em José “Jesus viu a ternura de Deus”, que “nos faz aceitar a nossa fraqueza”, através da qual se realiza a maior parte dos desígnios divinos, um Deus que “não nos condena, mas nos acolhe, nos abraça, nos ampara e nos perdoa”.

    Eu contemplo a Sagrada Família e me sinto confortada. Não apenas pela imagem de Maria, que é minha mãe, meu amor, e de Jesus ao centro, sustentando a Família de Nazaré, mas pela imagem de um pequeno-grande-homem, simples, humano, que abraçou sua missão com e por amor, confiando em um Deus vivo que incondicionalmente amava e servia.

    Penso que agora eu entendo o que Santa Teresa de Ávila queria dizer com seu escrito, mas gratidão é um sentimento indizível. Eu só sei sentir.
    Paz e bem!
     
    Dinair Fonte


     
     
     

    10/01/2021 - Atualizado em 11/01/2021 02:03

  5. Em meio à nova onda de casos de Covid-19 e às notícias sobre a vacinação, chega um novo ano. Com ele, um esperançoso janeiro, mês do padroeiro principal de nossa cidade e arquidiocese. Não poderíamos ter um intercessor mais propício: São Sebastião é o mais célebre patrono contra a peste.

                Quando a peste atingiu a Itália, no ano de 680 da Era Cristã, relíquias de São Sebastião foram trasladadas de Roma para Pavia (c.40km de Milão). Nas duas cidades teriam sido preparados um altar lateral para o mártir. A epidemia cessou. Pavia nunca esqueceu de festejar esta memória, consolidando ali a invocação desse santo contra as epidemias. Em Roma, São Sebastião já era o terceiro padroeiro, abaixo dos apóstolos Pedro e Paulo.

                Aquela proteção foi providencialmente recordada quando a pandemia da “peste negra” (1347-1353) varreu o Velho Mundo. Enquanto procuravam causas e remédios naturais, autoridades citadinas faziam rogos a São Sebastião com procissões, penitências e promessas de capelas, altares e pinturas votivas, como em Florença. A "Legenda Áurea" – um dos mais lidos compêndios de vidas de mártires e santos – consagrou e espalhou a história da intercessão em favor de Roma e Pavia naquele momento.

                Na Era dos Descobrimentos, Portugal descobriu também tais graças. Dom Manuel, o rei que leu a carta de Caminha, incrementou a veneração de São Sebastião em Lisboa, afligida pela peste no início dos anos 1500. O rei seguinte, Dom João III, obteve uma relíquia do braço de São Sebastião, deixando-a sob a guarda do Mosteiro de São Vicente de Fora. Religiosos diziam que, desde que aquele tesouro chegara, quase não houvera epidemias em terra lusitana.

                Dom Sebastião, neto de Dom João III, recebeu este nome por nascer num 20 de janeiro. Foi devoto de seu homônimo e planejou construir uma magnífica igreja a seu patrono no coração de Lisboa, em agradecimento pelo fim da “peste grande” de 1569. Não chegou a ser concluída. A correlação entre o santo e o rei, porém, não escapou aos fundadores do Rio de Janeiro: ao contrário do que se diz às vezes, o batismo da cidade (1565) não foi apenas homenagem ao rei, visto que o próprio rei se fazia reconhecer como devotado a São Sebastião, e o promovia.

    Nas águas e matas da Guanabara, lutavam então portugueses (aliados a temiminós e tupiniquins) contra franceses (aliados aos tamoios), nas batalhas da fundação do Rio de Janeiro (1560-1567). Tendo sido soldado, São Sebastião era invocado também na guerra – daí a história de sua aparição milagrosa como guerreiro em meio aos índios. Porém, o carisma antipeste do santo era bastante oportuno, tendo em vista que jesuítas, como Nóbrega e Anchieta, reiteravam em suas cartas a virulência da peste entre índios, especialmente “as varíolas”. A escolha do santo patrono da cidade que havia de ser erguida (inclusive pelo braço indígena) deve ter levado também isso em consideração, implicitamente.

    Em 1576, a Arquidiocese de Milão invocou São Sebastião contra a peste, reconstruindo uma antiga igreja sua. Em 20 de janeiro de 1578, celebrava-se oficialmente o fim da epidemia. O arcebispo foi lembrado por atuar em várias frentes naquela calamidade. Canonizado, passou também a ser invocado contra a  peste, com aval da Igreja: estamos falando de São Carlos Borromeu. Na América Latina, algumas cidades escolheram São Sebastião como patrono principal ou secundário por conta dos males contagiosos, especialmente em portos de mar. Foi assim em Vera Cruz, no México; Cartagena e Maracaibo, na América do Sul. Olinda e Igarassú, em Pernambuco, recorreram a São Sebastião (entre outros santos) por conta da epidemia de febre amarela de 1686. Mesmo com apertadas rendas, as câmaras municipais dessas duas cidades construíram as capelas votivas de São Sebastião que lá existem até hoje. Os agentes da Fazenda da monarquia portuguesa aprovavam esses gastos porque São Sebastião era conhecido no mundo inteiro como “Advogado da Peste”.

    E no Rio de Janeiro? A varíola era um dos grandes males da cidade na era dos engenhos.  Ceifava vidas de alguns senhores, mas, sobretudo, de escravos, diminuindo também a produção de açúcar. Houve surtos de “bexigas” (como era chamado o mal) nos anos de 1642-1643, 1666 e 1693. Porém, à época, na correspondência trocada entre autoridades, considerava-se o Rio de Janeiro como privilegiado, se comparado a outras povoações da costa do Brasil. Atribuía-se a São Sebastião a rarefação dos contágios, levando-se em consideração que o Rio era um porto cada vez mais frequentado. Era suficiente para que se suportassem os gastos da Câmara com a procissão e a festa anual do santo e para que ele fosse mantido como padroeiro da cidade e titular da catedral, mesmo quando esta precisou mudar de igreja nos anos 1700. A antiga sé de São Sebastião do Morro do Castelo não foi de todo abandonada, como agradecimento àqueles benefícios, com a chancela do rei de Portugal, Dom João V.

    Foi nas calamidades que atingiram a corte imperial nos tempos de Pedro II – febre amarela, em 1850, e cólera-morbo, em1855 – que a invocação do padroeiro da cidade e protetor contra a peste se fez mais urgente que nunca. Em março de 1850, fizeram-se preces a São Sebastião e a São Roque, outro santo tradicionalmente invocado em epidemias. Imagens suas saíram às ruas, como também a de São Benedito (corriam boatos de que a doença era castigo por uma desfeita ao santo, por causa de sua cor, no ano anterior).

    Também durante a pandemia da “hespanhola”, a cidade recorreu a São Sebastião. Para aplacar o “mal reinante”, várias paróquias e irmandades, de diferentes invocações, fizeram procissões com o santo flechado sobre o andor principal, por ser padroeiro da cidade e advogado da peste. Sobretudo, em outubro de 1918, quando o cenário era desolador. Passada a gripe, sem descartar a possibilidade de nova onda, o cardeal arcebispo Dom Joaquim Arcoverde (1850-1930) redigiu, em dezembro de 1919, uma carta pastoral cujo espírito era a renovação do fervor ao padroeiro. A carta salienta que São Sebastião era “especial protetor contra a peste”, recordando os exemplos de Roma, Milão e Lisboa. E se pergunta: “de quantas graças não lhe somos também nós devedores?”. Embora não se refira textualmente à “influenza espanhola”, é provável que o arcebispo estivesse, nas entrelinhas, fazendo apelo à consciência dos sobreviventes, sugerindo que o santo alcançara de Deus o livramento da cidade. Para 1920 e os anos seguintes, Dom Arcoverde instituía uma novena a São Sebastião antes de sua festa, recomendando penitências nesses dias e abstenção de carne na véspera da procissão solene.

    Cem anos depois, haverá outra vez um mês de janeiro com motivos extras para a solenidade do padroeiro. Por um lado, súplicas pelo fim da pandemia e pelos que sofrem. Por outro, ação de graças pela chegada providencial das vacinas, que (assim esperamos) poderão arrefecer os males. Não se poderia ter melhor advogado junto ao Supremo Juiz. Que ele alcance, com seus méritos de testemunha de Cristo, junto ao tesouro celestial das Graças, o livramento dessas flechas de peste.

    Vinicius Miranda Cardoso
    Doutor em História Social (PPGHIS-UFRJ), professor da SME-RJ, autor do livro “Cidade de São Sebastião” e vencedor do prêmio anual do Arquivo da Cidade (2018)



    10/01/2021 - Atualizado em 11/01/2021 01:59