Arquidiocese do Rio

  1. “Ego Sum Pastor Bonus” (Jo 10,11) é o lema da nova turma de sacerdotes que serão ordenados pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, na Catedral de São Sebastião, no Centro, no dia 24 de abril, às 8h30.

    Formados pelo Seminário Arquidiocesano de São José, são eles: diácono Allexsandro Martins Valente, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Santa Cruz, diácono Diego Estevam Ottoni Moreira, da Paróquia Santa Rita de Cássia, em Campo Grande, diácono Emerson Manoel da Silva, da Paróquia Sagrada Família, na Maré, diácono Gleiciano de Freitas da Silva, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Santa Cruz, diácono Joelson da Cruz Nazareth, da Paróquia Nossa Senhora da Glória, no Largo do Machado, diácono José Bezerra Rodrigues Neto, da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Santa Cruz, diácono Ronaldo Fernandes Henrique, da Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em São Gonçalo, e diácono Vitor Aguillar da Silva, da Paróquia Nossa Senhora da Candelária, no Centro.

    A celebração de ordenação será transmitida pela RedeVida de Televisão, Rádio Catedral, WebTV Redentor e mídias sociais da Arquidiocese do Rio.

    Ministério do Presbiterado

    Pela sagrada ordenação é conferido aos presbíteros aquele sacramento, mediante o qual “pela unção do Espírito Santo são assinalados com um caráter especial e assim configurados com Cristo Sacerdote, de forma a poderem agir na pessoa de Cristo cabeça” (PO 2).

    Portanto, os presbíteros participam do sacerdócio e da missão do bispo. Solícitos cooperadores da Ordem Episcopal, chamados a servir ao Povo de Deus, constituem com seu bispo um só presbitério, dividido, porém, em vários ofícios.

    Participando, no grau próprio de seu ministério, da função de Cristo, único mediador (cf. 1Tm 2,5), anunciam a todos a Palavra de Deus. Eles exercem o seu sagrado múnus principalmente na assembleia eucarística. Em favor dos fiéis penitentes ou doentes, exercem, no mais alto grau, o ministério da reconciliação e do alívio, e levam até Deus Pai as necessidades e preces dos fiéis (cf. Hb 5,1-4). Exercendo, dentro do âmbito que lhes compete, o múnus de Cristo Pastor e Cabeça, eles congregam a família de Deus como uma fraternidade em busca da unidade e a conduzem a Deus Pai, por Cristo, no Espírito Santo. No meio da grei, adoram-No em espírito e verdade (cf. Jo 4,24). Afinal, esforçam-se na pregação e no ensino (cf. 1Tm 5,17), acreditando no que leem, quando meditam na lei do Senhor, ensinando o que creem e praticando o que ensinam (Pontifical Romano).

    Da Redação



    19/04/2021 - Atualizado em 20/04/2021 13:55

  2.             ‘Judá é um leãozinho’, lê-se em Gn 49, 9. O leão é um símbolo ambivalente nas Escrituras. Ora, indica a realeza, ora a força, ora o abismo, o Hades. Enfim, pode ser imagem de coisas boas e de coisas ruins. Lembremo-nos da carta de Pedro: ‘Sede sóbrios e vigilantes! Eis que o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir, procurando a quem devorar’ (1Pd 5, 8).

                Leôncio de Constantinopla (séc. VI) relaciona a imagem do ‘leão que dorme de olhos abertos’ aos símbolos pascais, que têm a força de um alimento espiritual. O leão é nomeado duas vezes, um vez em cada uma de suas duas homilias pascais como o símbolo de Cristo no túmulo: assim como o animal não fecha os olhos enquanto dorme em seu covil, também Cristo manteve os olhos de sua divindade abertos na tumba: “Todos os símbolos da ressurreição do Senhor são para nosso reparo corporal e nossa salvação espiritual: a astúcia cessou, o ciúme foi banido, a contenda foi repelida, a inimizade espezinhada, a guerra acabou e a paz é respeitada, o afeto cresce, a caridade é reconhecida, as disposições acompanham, cumpre-se a palavra que dizia: 'Ah! O que há de bom ou agradável senão vivermos juntos como irmãos?’” (Léonce de Constantinople et alii. ‘Homélies pascales’. Org. Michel AUBINEAU. Sources Chrétiennes. Paris: Éditions du Cerf, 1972).

    Leôncio foi um sacerdote de língua grega que nasceu no final da segunda metade do século V e desempenhou seu ministério na primeira metade do século VI. Conhecido por suas homilias, somente cerca de uma dezena e meia delas chegaram até nós, precisamente 14, consoante a mais recente edição e tradução inglesa de Pauline Allen e Cornelis Datema, 1991, da excelente editora Brill. Estes escritos revelam um importante conhecimento da retórica, assim como sua capacidade de criar neologismos e, enfim, de ornar seu discurso. Seguiremos aqui tanto a edição inglesa da Brill, como a francesa da Sources Chrétiennes, donde fazemos as traduções.

                Vê-se logo de início que as homilias de Leôncio recorrem continuamente às Escrituras e, no caso de suas homilias pascais, tanto para relatar os fatos da Páscoa de Cristo como sua profecia no Antigo Testamento. Os fatos pascais de Cristo são repletos de sinais que se reportam pois, aos patriarcas e profetas:

    "Hoje, de fato, Cristo, nosso Mestre, ressuscitou dos mortos nas profundezas da noite, apareceu pela primeira vez a Maria Madalena e à outra Maria dizendo-lhes: 'Alegrai-vos e, por vossa causa, se alegrem todas as do vosso sexo', diz o Senhor às mulheres. Alguns dirão certamente: 'Por que o Senhor que ressuscitou dos mortos não foi visto primeiro pelos apóstolos, mas por mulheres e lhes disse: 'Alegrai-vos'? Por quê? Exatamente por isto: porque a aflição brotou por uma mulher, o Senhor fez surgir a alegria novamente por uma mulher, conforme diz sua Palavra: 'Onde abundou o pecado, superabundou a graça'. Mas quando o Senhor foi crucificado e conheceu o túmulo por nós, não por si, todos os apóstolos encontraram sua salvação na fuga e 'foram feridos como ovelhas sem pastores'. Ora, essas mulheres, mantidas acordadas pelo temor e sem dormir a noite toda, que acolheram o Salvador: é por isso que até os nossos dias o sexo feminino ama as vigílias. Depois que elas permaneceram no túmulo, o Senhor, encontrando-as necessariamente, disse-lhes: 'Alegrai-vos, porque também chorastes: na verdade os que semearam em lágrimas colherão com alegria. Alegrai-vos, reconhecei a minha voz. Mudei. na verdade, em minha aparência exterior, não do ponto de vista da realidade, mas quanto ao que a envolve. Alegrai-vos, mulheres "(Léonce de Constantinople et alii. ‘Homélies pascales’, n. 3, p. 371-373).

                Uma característica constante do texto de Leôncio é a chamada que faz aos judeus: “Por que não sondas as Escrituras? Com efeito, foi apenas no tempo da Encarnação que o Senhor disse: 'Depois de três dias eu ressuscitarei'? Aprendei com Ele, ó judeus, que muito antes, por meio do profeta Sofonias, Ele já havia dado a conhecer e predito a sua futura ressurreição, para que reconheçais que o assunto não é recente e que a decisão é antiga”(n. 5, p. 375). Esta referência ao povo judeu justifica-se, entre outras razões, porque eles foram testemunhas do que os antigos profetizaram a respeito de Cristo. E por isso, judeus ou gregos, ou qualquer outro povo, estejam todos atentos aos sinais do Senhor: “Ouvi o Espírito Santo que tem falado por muito tempo por meio do profeta Davi sobre esses 'novos iluminados': 'Que falem os redimidos do Senhor, os quais foram resgatados das mãos dos inimigos e reunidos de todos os países, Leste e Oeste, Norte e Mar!'. Estas palavras não enganam: na verdade, de todas as raças, de todas as tribos e de todas as regiões, os Apóstolos, como pescadores que foram, capturaram estes peixes espirituais na rede da piscina (baptismal). Esta é a arte dos pescadores de Cristo: não lançam redes de linho, mas capturam pela fé” (n. 7, p. 379).

                Voltemos à imagem do leão. A lenda de que o leão dorme de olhos abertos inspira a interpretação de Leôncio, mas não é original. Ela pertence a uma tradição antiga que precede o nosso autor e trata de exprimir propriedade muito verdadeira do rei dos animais: sua capacidade de estar alerta ainda quando dorme. Como se sabe, a imagem do leão é tirada sobretudo das bênçãos de Jacó a seus filhos no livro do Gênesis: ‘Judá é um leãozinho. Correste, meu filho, para a presa, deitaste-te para descansar como o leão, e como a leoa, quem o despertará?’ Gn 49, 9.

    Então, a partir desse versículo, Leôncio discorre: “Estas palavras, Jacó as disse de antemão, em vista de nosso Mestre, Cristo. Por que Cristo ‘se deitou como um leão’? Por causa de sua dignidade real e de sua capacidade de ressuscitar a si mesmo: assim como ninguém pode acordar um leão adormecido de seu sono, a menos que ele mesmo saia desse sono, também ninguém ressuscitou dos mortos o Cristo, nosso Mestre, mas ele acordou enquanto o ouvíamos dizer: 'Eu tenho o poder de dar a minha vida e o poder de recuperá-la', e de novo: 'Destruí este templo e, em três dias, eu o levantarei'” (n. 9, p. 385). Por que Cristo é chamado de leão? – pergunta-se Leôncio e nos dá esta resposta:“Assim como o leão corpóreo, enquanto dorme, mantém os olhos abertos - é de fato esta a natureza do leão - assim Cristo, nosso Mestre, nos três dias que dormiu por causa de sua encarnação, não fechou os olhos da divindade” (ibid.).

                O Salmo 121 também insiste na vigilância de Deus sobre seu povo: ‘Sim, não dorme nem cochila o guarda de Israel’ (v. 4). Este estar em vigília é uma atitude pascal, cuja imagem é o leão: “Alegremo-nos. Os filhos dos fariseus estão realmente de luto. Por quê? - Porque não acreditaram em seu patriarca Jacó, que por muito tempo clamou sobre a real ressurreição do Senhor: 'Depois de se deitar, ele adormeceu como um leão e como um leãozinho: quem o faz se levantar? ' Que dizes, ó judeu? 'Dá-nos outro que se tenha erguido de maneira real, como um leão, e acreditaremos no que dizes.' Se ninguém mais, exceto Cristo, nosso Mestre, dormiu como um leão por três dias, e se levantou como um filhote de leão - como é possível ouvir o Senhor dizer muito antes de sua encarnação: 'Eu sou como uma pantera de Efraim e como um leão da casa de Judá '- por que não adoras o Ressuscitado? É bem possível dizer o que o Senhor fez na tumba, como o leão, e por que o fez. Por quê? - Por causa do comportamento natural do leão: o leão, cochilando na cova onde dorme, mantém os olhos abertos; da mesma forma, Cristo...” (II, nº 6, p. 439-441).

                Enfim, em Apocalipse 5, 5, Jesus Cristo é chamado de leão vencedor: ‘Não chores! Eis que o Leão da tribo de Judá, o Rebento de Davi, venceu para poder abrir o livro e seus sete selos’. Não se trata mais de chorar a morte, mas de celebrar a vitória sobre a morte. O olhar de Cristo é também o olhar da vitória. O ícone aqui ao lado é de antiga representação e exprime a mensagem que vimos expondo até aqui. Jesus é retratado quase como uma criança num berço, que dorme de olhos abertos. Unem-se aí os mistérios da encarnação, da morte e da ressurreição de Jesus pelo olhar vigilante do Salvador.

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    Carlos Frederico Calvet da Silveira, professor da Universidade Católica de Petrópolis e do Seminário de São José, Rio.

     

    19/04/2021 - Atualizado em 19/04/2021 12:53

  3. É comum encontrar imagens de São José junto à inscrição: "Ide a José e fazei o que ele vos disser" (Gn 41, 55). É no mínimo curioso começar este texto com tal citação, uma vez que nas Sagradas Escrituras não exista uma fala sequer atribuída a São José. A sentença, porém, originalmente referida a José do Egito, foi bem cedo aplicada ao Patrono da Igreja. É preciso revelar um pouco da riqueza escondida nesta aparente contradição.

    O corpo, se sabe, exprime uma linguagem e, por isso, é capaz de estabelecer uma comunicação através dos seus inúmeros sinais. O Evangelista Mateus diz que “ao despertar do sono, agiu (José) conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara” (Mt 1, 24). Logo, esse “agir” é uma espécie de fala, uma resposta ao chamado de Deus, como que o “fiat” de São José 1. A sua virtuosa prontidão foi uma maneira muito eloquente de dizer “eu creio”, uma vez que a fé se manifesta nas obras (cf. Tg 2,18). No coração do pai adotivo de Jesus existe um verdadeiro fervor na realização da Vontade de Deus. Seguindo esse raciocínio, pode-se entender que José, sem o uso das palavras, tem muito a dizer a todos por meio de sua conduta piedosa e de sua missão no seio da Sagrada Família.

    Também vale salientar que foi o Espírito Santo, por meio das Sagradas Escrituras, que testemunhou que José era um “homem justo” (Mt 1,19). Este acento, portanto, não deve passar despercebido diante dos olhos dos fiéis, pois nada nos textos sagrados é supérfluo. Por isso, São João Crisóstomo diz:

    É de notar que se chama aqui de justo aquele que em tudo é virtuoso. Há, com efeito, uma certa justiça em sentido especial, que é não ter cobiça, e outra virtude em sentido universal; e é nesse sentido que, principalmente, a Escritura emprega a palavra ‘justiça’ Pois do mesmo modo que o sol, antes de exibir seus raios, já ilumina a Terra, assim também Cristo, antes de nascer, fez com que aparecessem no mundo muitos sinais de perfeita virtude. 2

    É interessante perceber que a justiça de Jesus é a causa da justiça de José em um ponto muito específico, a saber: a obediência. José é sobretudo justo porque não deu um passo sequer no momento de sua angústia, pois não convêm ao homem justo agir por impulso.

    Certamente, e sem qualquer exagero, aqui se poderia aproximar a oração do Horto com a angústia vivida por São José: dois corações que esperavam do Pai Celeste a resolução de suas dores. Eis uma iluminação do papa Francisco acerca da justíssima obediência de José e de Jesus:

    Ao longo da vida oculta em Nazaré, na escola de José, Ele aprendeu a fazer a fazer a vontade do Pai. A vontade torna-se o seu alimento diário (Jo 4, 34). Mesmo no momento mais difícil de sua vida, vivido no Getsêmani, preferiu que se cumprisse a vontade do Pai, e não a sua, fazendo-se “obediente até a morte (...) de cruz” (Fl 2, 8). Por isso, o autor da Carta aos Hebreus conclui que Jesus “aprendeu o que significa a obediência, por aquilo que ele sofreu” (Hb 5, 8).3

    Ainda que Jesus seja causa da justiça e santidade de São José, humanamente falando, o Cristo aprende com o seu pai o modo de se viver a obediência a Deus mediante os sofrimentos da vida. O arquétipo de coração resoluto e apressado em fazer a Vontade do Pai, Jesus o viu espelhado na vida do seu pai terreno.

    A virtude da obediência, por definição, consiste na “virtude moral sobrenatural, que nos inclina a submeter nossa vontade à dos superiores legítimos, enquanto representantes de Deus” 4. José foi legítimo pai de Jesus, conforme a afirmação do papa São João Paulo II:

    O filho de Maria é também filho de José, em virtude do vínculo matrimonial que os une: Por motivo daquele matrimônio fiel, ambos mereceram ser chamados pais de Cristo, não apenas a Mãe, mas também aquele que era seu pai, do mesmo modo que era cônjuge da Mãe, uma e outra coisa por meio da mente e não da carne.5

    Neste sentido, segue-se que o Cristo aprendeu a ser obediente a Deus sendo obediente a seu pai terreno6. Aliás, vale apena esclarecer que a obediência prestada por Jesus a São José era “uma espécie de culto que se traduz em testemunhos de reverência interiores e exteriores” 7. Quanta honra! Pois que nenhum anjo, profeta ou apóstolo teve a graça de receber do Senhor tamanha reverência!

    Por fim, vale ressaltar que se no início a obediência de José se manifestava na sua submissão a Deus, agora, num grau muito mais elevado, pode-se observar que tal virtude se expressa na sua cooperação com o Mistério da Encarnação. Sim! Ele teve de ser muito mais obediente para acolher o projeto de Deus em sua vida a fim de aceitar a missão de pai do Verbo Encarnado e, assim, cooperar para que as Escrituras se cumprissem na história. Por isso, pode-se piedosamente exclamar que a Obediência (que é Cristo Jesus) se fez carne, também, por meio dos “sim” que constantemente o esposo de Maria deu a Deus.

    Este ilustríssimo patriarca cooperou nos principais acontecimentos da vida do Divino Infante: o recenseamento e o nascimento em Belém; a circuncisão e a imposição do nome; a apresentação no templo, a fuga para o Egito e a ida para Nazaré; e a perda e o encontro de Jesus em Jerusalém.

    Sem dúvidas, em todos estes momentos, o que movia o coração do justo José era a fé: causa da salvação dos homens (cf. Hb 10, 38). Que este coração obedientíssimo, cheio de fé e de justiça, interceda por toda a Igreja militante, a fim de que os cristãos, herança de Jesus Cristo, possam um dia também exclamar: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2 Tim 4, 7)! Amém.

    Padre Renan Pereira da Silva
    Vigário paroquial na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, em Campo Grande

     

    Referências:
     
    1 FRANCISCO. Carta Apostólica Patris Corde, n.3.
    2 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, Homiliae in Matthaeum, hom. 4 apud TOMÁS DE AQUINO, Catena Aurea: Evangelho de São Mateus, p. 78-79
    3 FRANCISCO. Carta Apostólica Patris Corde, n.3.
    4 TANQUEREY, ADOLPHE. Compêndio de Teologia Ascética e Mística, n. 925, p.383.
    5 JOÃO PAULO II, PP, Redemptoris Custos, n.7
    6 “Em sua função de chefe de família, José ensinou Jesus a ser submisso aos pais (Lc 2, 51), segundo o mandamento de Deus (Ex 20, 12)”, FRANCISCO. Carta Apostólica Patris Corde, n.3.
    7 LÉPICIER, A., São José, esposo da Santíssima Virgem Maria, p.139.

     

    19/04/2021 - Atualizado em 19/04/2021 12:51

  4. É bem capaz de você já ter aberto a Sagrada Escritura, edição Pastoral, da Paulus, para leitura e não ter notado na página 10 um dos poemas mais bonitos que já li na vida. Quatro versos simples que tentam revelar poeticamente o que ainda está para além da compreensão humana: Quem é Deus?

    Como cristãos, sabemos que Jesus nos ajuda a responder a essa pergunta, pois Ele mesmo é o ponto mais alto da revelação de Deus. Foi através do seu Filho Unigênito que Deus Pai se deslindou a nós (Jo 1.18).

     Jesus Cristo é o Verbo eterno e divino que, cheio de graça e de verdade, se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14). Sua glória é a glória do Unigênito do Pai do Céu. Jesus é a exegese de Deus.

    Quem O vê, vê O Pai. Os dois são um. Jamais podemos ir a Deus de outra maneira, apenas por meio de Cristo. O próprio Jesus afirmou: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14.6). É o Emmanuel a revelação máxima e final de Deus

    Contudo, o ser humano ainda está longe de compreender a grandeza de Deus em sua totalidade, talvez porque insista em querer que essa compreensão se dê mais através da razão, pelos estudos, teologias e filosofias, e menos pelo sentimento, o afeto, a oração.

    Jesus sabia disso, tanto que usou um termo muito afetivo, especial, para se referir a Deus: chamou-O de “Abba”, uma palavra aramaica que, traduzindo para o português, significaria 'papai', ou 'paizinho', uma forma carinhosa das crianças normalmente se referirem a seus pais e que Jesus talvez pode até ter usado ao dirigir-Se a seu pai adotivo, José.

    Com efeito, o sentimento, o alumbramento das coisas, ajuda-nos sim a compreender Deus. E não há nada mais comovente, que sensibiliza e desperta sentimentos do que a poesia, manifestação de estética e de beleza retratada por um poeta em forma de palavras.

    O poema de Rabindranath Tagore (1861-1941), que podemos encontrar nas primeiras páginas da Bíblia, edição Pastoral, apresenta um sujeito poético em busca de um Deus aparentemente oculto:

    Aqui é o estrado para os teus pés,
    que repousam aqui,
    onde vivem os mais pobres, mais humildes e perdidos.
     
    Quando tento inclinar-me diante de ti,
    a minha reverência não consegue alcançar
    a profundidade onde teus pés repousam,
    entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
     
    O orgulho nunca pode se aproximar
    desse lugar onde caminhas
    com as roupas do miserável,
    entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.
     
    O meu coração jamais pode encontrar
    o caminho onde fazes companhia
    ao que não tem companheiro,
    entre os mais pobres, mais humildes e perdidos.

     

     

    Note que as expressões repetidas, “teus pés” e também as ações “caminhar”, “descansar” e “seguir”, nos remete a uma peregrinação do “Tu” juntos aos excluídos do mundo: “os mais pobres, humildes e perdidos.”, os preferidos Deus. E que os “pés”, que remetem aos que peregrinam nesta vida, recordam-nos o lava-pés dos discípulos, na Última Ceia: “Se eu vos lavei os pés, sendo Senhor e Mestre, também vós deveis lavar os pés uns aos outros.” (João 13, 14).

    Neste sentido, vale frisar que a proposta do poema não é tentar explicar ipsis litteris Deus, longe disso, mas marcar o espanto e o reconhecimento sincero de que quanto mais abraçamos nossa missão neste mundo, de servi-Lo, quanto mais O buscamos com entrega, mais longe de alcançarmos ficamos. Mas mesmo assim, nunca devemos desistir! A humildade, a misericórdia e a solidariedade são os caminhos mais seguros para nós nos aproximarmos de Jesus e, consequentemente, desvendarmos Deus cotidianamente, cada vez mais: “Acreditai que estou no Pai e o Pai está em Mim” (João 14, 11).

    Pode parecer contraditório, mas é justamente por conta desse não conhecimento de Deus em sua completude, afirma S. Tomás de Aquino, “que estamos mais perfeitamente unidos a Ele nesta vida”.

    Só seguindo sem pressa, passo a passo, abrindo nossos sentidos para sentir Deus verdadeiramente como um Pai, é que seremos conduzidos da pequenez à grandeza, da nossa ignorância à sabedoria. 

    Rabindranath Tagore, prosador, educador, poeta, reformador social e filósofo, Prêmio Nobel de Literatura em 1913, é considerado um dos poetas mais importantes da Índia Moderna.

    Os poemas que mais gosto desse autor estão na antologia poética “O coração de Deus”, Ediouro Editora. São poemas místicos, cotidianos. Comoventes orações de um ser consciente dos desafios da vida, porém louco de amor, em busca de um Deus que se esconde e se revela, que é só silêncio, mas principalmente suave presença.

    É uma obra que nos impulsiona a nos entregarmos a este coração em meditação também, com confiança, e nos convida a Lhe servir verdadeiramente neste mundo.

    Tagore soube expressar de maneira profunda seu honesto relacionamento com Deus, sua experiência apaixonada e extremamente pessoal, permeada de tristeza e alegria.

    O livro é mais do que uma celebração da vida, do momento presente, lugar onde Deus verdadeiramente está, é a celebração da certeza de que apesar de todas as dificuldades, Ele é o “estrado para nossos pés”, quem nos sustenta sempre, nos ampara e nos ama, profundamente.

    Paz e bem!

    Dinair Fonte


    19/04/2021 - Atualizado em 19/04/2021 12:49

  5.             O sopro de vida é o início da concepção do homem enquanto matéria para abrigar seu espírito e brotar para o mundo, tornando-se criatura na Criação. Mas para que isso aconteça faz-se indispensável o amor entre o casal para, em sua imanência, transcender sacramental e sagradamente; desabrochando a encarnação deste amor recíproco; os filhos.  Compreende-se, portanto, que a matéria é o primeiro local a acolher a essência do ser humano para ao nascer experienciar a continuidade deste amparo no núcleo vital da sociedade: a família.

               Na passagem bíblica de Gn 2, 18 destaca-se o valor de que o homem não esteja sozinho direcionando a esta comunhão de pessoas e enraizando o desígnio de Deus da fecundidade e multiplicação; povoando a terra (Gn 1, 28). Conforme cita a Doutrina Social da Igreja: “A família delineia-se, no desígnio do Criador, como ‘lugar primário da humanização da pessoa e da sociedade e berço da vida e do amor’”. (p. 129, 209-210)

                Entende-se por família uma rede de consanguinidade (pais, filhos...), mas também por uma rede de amor por adoção. É o primeiro núcleo social – relações interpessoais - que pedagogicamente forma o indivíduo para a constituição de sua personalidade, caráter e comportamento; o conscientizando de sua identidade única enquanto ser pessoa que é a sua característica social. Desta forma, a família deve ter o equilíbrio de sua autoridade qualitativa na esfera matriarcal e patriarcal – papel de responsabilidade - para um núcleo educacional saudável, essencialmente no lidar com a diversidade que começa nesta célula vital. Um exemplo deste ideal familiar e sua rede do amor pedagógico é a Sagrada Família: a família de Nazaré que em sua simplicidade semeou o sentido basilar de ser família sagrada em sua fidelidade, em seu diálogo e, acima de tudo, em sua comunhão e dignidade invioláveis.

    ”Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus Ele o criou, homem e mulher Ele os criou (...). Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom.” (Gn 1, 27;31)

    Esta narrativa - conforme enfoca o Papa Francisco em sua Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Amoris Laetitia” (11, p. 12-13) - sinaliza a “imagem viva e eficaz, sinal visível do ato criador” no amor conjugal em sua fecundidade, enfatizando o que o apóstolo Paulo disse ao relacionar o casal com o “mistério da união entre Cristo e a Igreja” (Ef 5, 21-33). Deste modo, é o primeiro chamado do amor e de sua vocação para a gestão e promoção em todas as dimensões do viver. Esta aliança de amor é o maestro da construção comunitária familiar em prol de uma regência fraterna universal.

                O amor por essência é doação, assim como esta entrega deve prevalecer nos laços matrimonial e familiar para torna-se abundante no mundo, sendo única via de combate ao que corrompe o gênero humano. Este sublime sentimento é que fornece uma estrutura de personalidade íntegra para um caminhar seguro e próspero do homem. Victor Hugo em sua poesia, O Homem e a Mulher ressalta, primeiramente, o “ser humano integral” no sentido de ser – conforme as circunstâncias da vida – razão e emoção no seu ato de buscar o equilíbrio para que haja a compreensão desta comunhão de amor gratuito entre o casal. Isto se dá quando um busca compreender o outro, respeitando suas particularidades e se compadecendo para o resgate desta singularidade perfeita, recíproca e produtiva. Eis um pequeno trecho desta perspectiva integral do ser humano e do ser casal: “O homem é a mais elevada das criaturas, a mulher é o mais sublime dos ideais. O homem é o cérebro, a mulher é o coração. O cérebro fabrica luz; o coração, o amor. A luz fecunda. O amor ressuscita (...)”.

                O amor caritativo no casal transfigura-se em um fiel testemunho aos filhos para a saudável construção do seu próprio ser e de seu papel na sociedade.  Dentro deste testemunho que a renovação acontece, o novo surge e a elevação familiar e social se fundamenta. “A dimensão natural do seu amor é constantemente purificada, consolidada e elevada pela graça sacramental” (DSI 220, p. 135). Dom que jamais se permite ao egoísmo, sua indiferença e corrupção.

                A família é o manancial que alimenta e impulsiona para uma práxis vocacional e sua concretude fiel, estável de uma vida crescente para difundir a justiça, paz e solidariedade. Esta é a digital autêntica do amor que colabora para a construção da rede do bem-estar que constitui os valores humanos, culturais, morais e sociais neste respeito à tradição histórica de cada um.

                “Que a família comece e termine sabendo aonde vai, e que o homem carregue nos ombros a graça de um pai. Que a mulher seja um céu de ternura, aconchego e calor; e que os filhos conheçam a força que brota do amor”.  Sábio sentido familiar expressado neste trecho e em toda a canção “Oração pela Família”, do padre Zezinho.  O amor é uma força que move a todos, de geração em geração, para a vitória do autoconhecimento e dos encontros, da consciência do aprender que testemunha, da fé que serve e da comunhão que promove a esperança de um mundo melhor.

                Que a sua, a minha e a nossa família seja um santuário que promova a vida e o bem comum. Que seja um santuário de oração que contempla; do silêncio que entende; do amor que partilha, da esperança que celebra o amanhã que somente poderá existir no presente. Este santuário começa no âmago do ser humano que tem vida e a eternidade na graça, logo, é bendito e digno de assistência. O homem em si mesmo deve ser artesão e protagonista de sua história, assim como a família tem a responsabilidade do protagonismo social.  Portanto, disse São João Paulo II: “faz de si um dom aos irmãos, às irmãs, aos pais, à família inteira. A sua vida torna-se dom para os próprios doadores da vida, que não poderão deixar de sentir a presença do filho, a sua participação na existência deles, o seu contributo para o bem comum deles e da família”. (Gratissimam sane, 6: AAS 86; 1994)

     

    Vivian Maria Felice Moreno

    Psicóloga e teóloga

    Comentarista do programa “Em Dia com a Notícia”

     

     

    19/04/2021 - Atualizado em 19/04/2021 12:46